CIARAMELLA ( 31/08/2017 )
 


Vicenzo e Giovanna eram filhos da Sicília, Itália Insular.

Eram almas gêmeas prometidas que contraíram matrimônio em 1922, ano lembrado pela “Marcha Sobre Roma” imposta pelo “dulce” Mussolini (1883-1945).

Vicenzo era camponês e possuía o perfil de seus antecessores gregos, colonizadores do “calcanhar da bota”, por volta do século VI a.C.

Giovanna era filha de latifundiários cerealistas e de uma beleza ímpar. Possuía a “loirice” das italianas setentrionais.

Resolveram “fazer a América” e não tinham tempo a perder com pequenos detalhes. Afinal, os homens que trabalhavam para Carlo, pai de Giovanna, não errariam seus disparos.

Somente respiraram quando o navio que os levaria ao Brasil levantou âncora.

Penosa e longínqua era a viagem programada pelo casal que se alimentava da solidariedade alheia. Eles não demoraram a adoecer. Ardendo em febre deliravam o medo da captura e o amor incondicional.

Vicenzo era virtuoso com a ciaramella - espécie de gaita de fole, conhecidíssima na Calábria -, enquanto que Giovanna cantava como poucas. Em suas miragens, fruto do delírio febril, eles plasmavam os inesquecíveis campos de trigo das cercanias da casa da jovem, onde se encontravam para, entre outras coisas, cantar, dançar e amar.

Pelo milagre de Deus - e capricho do destino -, Vicenzo se recuperou.

Entretanto, Giovanna ...

O jovem marido apelou a todas as preces possíveis, mas as coisas não funcionavam conforme o esperado. Viagens como essa demandavam fé, resistência e sorte. Acomodamentos insalubres, onde o calor do dia e o frio noturno revezavam-se no anúncio inevitável do cadafalso de cada viajante, conspiravam contrários aos interesses do casal.

E assim, certa manhã, a ciaramella de Vicenzo emudeceu. Giovanna fechara o par de olhos verdes pela última vez. O mundo das idéias platônicas fazia por merecer a bela e jovem siciliana.

A mortalha improvisada pelos marinheiros, e que escondia o corpo da ragazza atirada ao mar, era a última lembrança de um amor incondicional. A maçã estava cortada pela metade.

E o ragazzo siciliano, às vezes lúcido, às vezes submetido à catarse, seguiu seu rumo. Porto, estalagem, ferrovia, fazenda de café, queda da bolsa, fuga do interior, chegada à capital, indústrias, anarquistas, greve, carcamanos, alegrias e tristezas. Amadurecimento, sangue, suor, preconceito e lágrimas. Tudo isso regado ao som da ciaramella.

Na primavera de 42, Vicenzo estava longe da Itália siciliana, longe da guerra européia e perto do pecado de ser imigrante. Era esposo de Fiorella - com quem descobriu o reinício - e pai de Ectore - como o grande guerreiro troiano - e Esperanza – como a forma simples de acreditar no futuro.

Na primavera de 42, Vicenzo tinha pelo que lutar e não era pelo fascismo.

Na primavera de 42 e vinte anos após o início de sua odisséia, Vicenzo era um homem honrado, digno e acima da moral que permeia as inúmeras sociedades existentes no planeta.

Na primavera de 42, Vicenzo fundiu em “suo cuore” duas bandeiras distintas, Brasil e Itália.

Na primavera de 42, assim como Vicenzo, a Sociedade Esportiva Palmeiras pode gritar sua vitória, a despeito das mazelas produzidas pelos inexoráveis caminhos da fatalidade.

Na primavera de 42, a ciaramella murmurava poesias que falavam dos campos de trigo.



***

O escritor e colunista Catedral de Luz nasceu na turbulenta década de 60 e adquiriu valores entre as décadas de 70 e 80 que muito marcaram sua personalidade, tais como Palmeiras, Beatles, Letras, Espiritismo e História... Amizades... Esposa e Filha.

Os anos 90 ensinaram-lhe os atalhos, restando ao novo século a retomada da lira poesia perdidas.

comments powered by Disqus
acesso rápido
 
 
 
 
 
 
 

Palmeiras Todo Dia - O Site Oficial do Torcedor Palmeirense!