"Vamos ser felizes novamente" (22/06/2010)
 

O passado confere autoridade a quem fala e faria da profecia palavra de ordem. Ao futuro, diante da mais alta patente, restaria bater continência e cumprir. Mas... 

É o presente o traidor, Marechal. É ele o responsável pela conjunção adversativa. É o ‘hoje’; dia dezoito, mês dez. Quando uma cobrança de pênalti nos roubou um ‘ídolo’. É o ‘hoje’; dia oito, mês onze. Quando um homem de preto nos roubou a liderança. É o ‘hoje’; dia seis, mês doze. Quando uma partida nos roubou a temporada seguinte. ‘Hoje’, 2009, o ano que nos tomou a confiança, que nos tornou personagens de Machado. Nação Dom Casmurro.

O palmeirense, aprisionado em 2009, condenou-se a revivê-lo. Ensimesmado, taciturno, cabisbaixo. Suspeita que o latim, apesar de culto, não seja tão nobre. – Panem et circenses? – pergunta-se desconfiado. Pondera sobre os riscos de mais uma aposta alta. Sobre a mesa, estão todas as fichas. Um jogador admirado foi repatriado, um técnico de ponta contratado. Negocia-se o retorno mágico do Camisa 10. – Déjà-vu? Na memória, tabela improvável. Categoria paradoxo: um time de primeira ocupando lugar de quinta.

É o presente a pedra no caminho. É ele, somado a um senso-comum, resquício ideológico de esquerda, que tem barrado a comemoração. O ‘hoje’, mais a idéia de que felicidade está relacionada à alienação, impede o palmeirense consciente, maior de idade, de acreditar na sentença que marca a volta de Luiz Felipe Scolari. Felipão, o condottiero que liderou o Palmeiras para conquistar a América em outros tempos, também datados pelo número nove, quando fomos felizes.
 
Seremos novamente? Esta coluna recorre à filosofia moderna para defender que é possível, sim, ser feliz. Entre os gênios infelizes e os felizes imbecis, o pensador André Comte-Sponville aponta uma terceira via, a da sabedoria. Os sábios, cientes de que a felicidade absoluta e contínua é, além de utópica, ilusória, permitem-se a alegria lúcida e relativa. Se vamos ser felizes amanhã, cabe à História atestar. Hoje, 22 de junho de 2010, a Paráfrase convida a Nação, sem amarras, a ser feliz.  

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