"Não temos equilíbrio" (10/09/2010)
 

Em uma semana atípica, a frase escolhida é a mais realista possível, proferida por Scolari.


Antes de começar a falar do tema em si, queria tomar a liberdade de comentar algumas coisas: não é fácil escrever sobre o Palmeiras quando se torce pra esse gigante. Nossas convicções, nossas reflexões, tudo é posto em xeque rodada após rodada. Digo isso porque confesso que me peguei relendo as colunas anteriores e verificando tudo que afirmei tudo que escrevi e vi que ao longo dos textos uma mensagem teimava em se repetir, quase como um mantra: a confiança no trabalho de Scolari.

E rodada após rodada, resultado ruim após resultado ruim, fiz um exercício de reflexão para ver se tudo que escrevi realmente bate com o que penso lá no íntimo.

Sim, bate.

Quando Felipão foi contratado eu jamais imaginei que tudo no Palmeiras fosse ser resolvido num passe de mágica. E olha que o ‘tudo’ a que me refiro é dentro das 4 linhas. Fora dos gramados, acredito que somente uma comissão de paz da ONU, com lideranças religiosas do mundo inteiro poderiam resolver nossa situação. Mas como nem no Oriente Médio eles conseguem dar um jeito, o que dizer da Faixa de Gaza Palestrina?

Tiradas infames e política clubistica à parte, voltemos à vaca fria. Sempre tive a clareza de que estávamos [estamos] numa situação complicada. A instituição Sociedade Esportiva Palmeiras, passa por um dos momentos mais complicados de sua história. Os torcedores sofrem com vexames atrás de vexames, humilhações, sacanagens do STJD, maus tratos por parte da imprensa especializada e toda sorte de infortúnio. Como é que alguém poderia achar que Luís Felipe Scolari, um dos melhores técnicos de futebol do mundo, mas ainda um técnico de futebol, resolveria em campo todos os problemas acumulados por tanto tempo e que refletem, vejam só, em campo?

Eu tenho fé e respeito pelo trabalho de Felipão, mas tudo tem um limite. Para ajeitar tudo isso será preciso tempo, é preciso ser realista, saber exatamente em qual terreno nossos pés tocam. Não adianta a cada resultado ruim questionar Scolari por equívocos táticos, por substituições errôneas, escalações esquisitas. Garanto a todos vocês leitores da Paráfrase que todo técnico tem suas convicções. Seja um iniciante, seja um consagrado, todo técnico comete erros, comete falhas e pisa na bola vez por outra. Parece óbvio isso, mas é bom lembrar que é humano o ‘carinha’ que fica ali na beira do gramado.

Ciente de toda angústia, de todo nosso sofrimento e jamais alheio ao que passamos nessa década, mesmo assim, mantenho tudo que já escrevi até hoje nesse espaço. Vale a pena acreditar em Felipão. O que ele tem que consertar não é somente a posição do Maurício Ramos ou a má fase do Vítor. É algo mais profundo e difícil: é consertar nossa auto-estima, é diminuir um pouco o peso de nossa camisa para que isso não jogue contra o Palmeiras.

Sei que o palmeirense não suporta mais ouvir falar em ano que vem. Desde Mustafá Contursi ouvimos isso, todo ano a história se repete e até o mais paciente dos palestrinos acaba ficando com ‘pá virada’ quando ouve isso. Mas sejamos realistas, Felipão não tem culpa por tudo de ruim, pelo acumulado no negativo que pegou. Ele sabe onde se meteu, assinou o contrato por opção sua, mas culpa, responsabilidade retroativa? Não. Isso ele não tem. Ele não tem culpa se eu, você ou qualquer outro palmeirense em qualquer canto do planeta já esteja de “saco cheio” da situação do nosso time, não agüente mais o discurso de que o Palmeiras é o time do futuro, nem das mancadas administrativas. Por mais apaixonados que sejamos é preciso calma a discernimento.

Aposto que na cabeça de muita gente, pra não dizer de todos, o maior desejo era de que o Palmeiras disparasse num sequência de bons resultados e atropelasse os adversários, faturando o caneco no final do ano. É natural, somos torcedores, pela própria definição do termo torcemos sempre para o melhor. Mas como isso ainda em 2010 se o próprio técnico declara isso: "Já sabemos 99% de chance que não vamos chegar em primeiro lugar. Não temos equilíbrio para isso"?

Não temos equilíbrio, meus caros, não temos algumas peças de reposição, não temos tempo, não tivemos organização, houve falhas no planejamento. É duro, diria até cruel, ter que escrever tudo isso, mas a realidade não é arte abstrata na qual é possível todo tipo de interpretação. É factual, é concreta, é real nossa situação. E jogar tudo isso nas costas de quem acabou de chegar é injusto. Principalmente quando vemos que mesmo um técnico multi vencedor enfrenta dificuldades mil para acertar um time. É preciso ter um real dimensionamento do nosso problema e parar de achar que só porque o Palmeiras é um gigante, que a todo o momento seja obrigado a ter conquistas gigantes.  Hoje, por exemplo, nossa maior conquista seria o alcance de um equilíbrio. Ou melhor, de um baita equilíbrio, pois precisamos de uma regularidade técnica, psicológica, física e tática, tudo isso numa afinação filarmônica.

Falando mais ainda de Felipão, ele nunca foi conhecido por chegar a acertar logo de cara os times que dirigiu. Pelo contrário, começa meio mal, parece que a coisa não vai andar, mas depois dá sinais de evolução após certo tempo. Somente Vanderlei Luxemburgo, nos tempos em que seu nome era grafado assim, era conhecido por chegar, olhar e acertar logo de cara. E mesmo assim não em todas as vezes, e, ainda assim, já perdeu mão desse talento há tempos.

Entendamos todos nós de uma vez por todas nossos contextos, nossa situação e nossa realidade. Sejamos apaixonados, intempestivos, mas na medida do possível conscientes do que queremos e exigimos.

Não podemos por culpa de um sofrimento acumulado por tudo a perder agora. Não agora. Não antes daquilo que pode ser a última chance do Palmeiras se reerguer de fato num curto espaço dentro da sua longa, bela e por vezes sofrida história.

Mais do que nunca nos 96 anos de história precisamos respirar e ter calma. E sim, não parece, é, de fato, um apelo.

Um minuto de silêncio em forma de leitura

Essa semana começou com uma notícia muito triste, que foi a perda brutal do Palmeirense (com P maiúsculo mesmo) Edu Queiroga.

Que ele esteja num bom lugar!

Eu me despeço deixando vocês com as palavras da Flavia Camargo, minha colega de espaço e irmã de coração, que conheceu e gostava muito do Edu, numa homenagem sem retoques, sem edição, sem correções, numa escrita que veio do lugar mais profundo da alma dela:

“Lascô!”, leio quando abro o Messenger, abaixo do contato Dom Queiroga. Edu está offline. Eu lamento porque precisava muito falar com ele. Falar o quanto ele é especial, gente do bem, de bem com a vida. De quanto é gostoso ouvi-lo cantar “Saudade D’ocê” com sotaque paraibano. Lembrar do jogo que assistimos juntos, quando ele veio de João Pessoa, mais para conhecer, além do virtual, os amigos que fez neste PTD... do que pelo prazer de ver o Palmeiras no Palestra.

Edu, um cara feliz. “Um entusiasta que come a vida com colher grande”, autodefinição perfilada na rede social. Um cara que se conhece. Um cara que encontrou outro cara, contrário, no meio do caminho. Que encontrou um cara que da vida não sabe nada, pois se soubesse não teria atirado. Não teria tirado o Edu do nosso convívio, tão cedo, tão antes, tão brutal. Lascô, Edu, para nós... que vamos ter que aprender a conviver com esse vazio. Você, eu sei, está em um lugar melhor. Vivendo aí como viveu aqui... Em paz.

Por Álvaro Costa
alvaro.costa@palmeirastododia.com

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