"Isso é democracia" (04/11/2010)
 

Hoje a conversa é mais sobre comunicação do que sobre futebol, mas não deixará de ser sobre o Palmeiras.


Direto e reto, Scolari afirmou na segunda-feira: “não sou obrigado a dar entrevistas. Não tenho essa obrigação no contrato. Dou entrevista quando eu achar interessante, e naquele momento eu não achei interessante falar. Isso é democracia”. Ele se referia à partida conta o Goiás, no sábado, véspera de eleição, onde o Palmeiras ganhou por 3 x 2 e o técnico não quis dar entrevistas.

Felipão tem sido tema recorrente aqui na Paráfrase. Não contabilizei, mas já deve ter sido parafraseado uma dezena de vezes por mim e pela Flávia. Natural... o time não fala na saída de campo – e entrevista coletiva de jogador, salvando-se poucos, geralmente é sonolenta e previsível – e o treinador é um poço de temas com seu jeito ranzinza, estressado, contundente e pra lá de carismático.

Nesta edição, porém, ele abriu brecha para que um tema explosivo fosse abordado. Tanto que, para desespero da colega de pena, terei que dividir a coluna em tópicos para melhor entendimento e até mesmo, confesso, para ficar mais fácil de escrever.

Capítulo I – Felipão versus Imprensa Esportiva

Felipão tem jogado duro com a imprensa? Sim. Mas a imprensa jogou mais pesado ainda com ele. Eu teria vários e sólidos motivos para dizer que não, afinal, sou jornalista por formação e produtor de TV por vocação e gosto. Mas uma dose de autocrítica para com a comunicação não mata.

Boa parte da imprensa criticou Scolari pelo fato de ter chamado um repórter setorista de palhaço. Sim, é errado, mas quem agüenta tantas e tantas ‘cascas de bananas’ espalhadas nas coletivas? Eu já teria explodido, mesmo sendo um sujeito calmo.

Porém, o foco de trabalho da imprensa está certo? Com toda sinceridade, não. Nem de longe. E poderia até escrever um nem fo... que caberia melhor ainda. Não adianta reclamar da reação do técnico. Ele não deu entrevistas? Chato, também queria ouvi-lo, mas ele que fale quando quiser. Ou que o jornalista gerencie melhor a relação com a sua fonte respeitando limites éticos, obviamente.

O esporte é algo dividido em duas frentes na comunicação: o entretenimento e o jornalismo. Quando um comunicador fala de dribles, de gols, de coreografias da torcida, ele está entretendo. Nesse aspecto o esporte, mais precisamente nosso futebol, é entretenimento, é arte. Já quando há uma denúncia, quando se divulga informações a comunicação está informando. E aí é onde a coisa fica feia. A informação só existe porque ela é do interesse de alguém, por mais óbvio que isso seja. E a quem interessa ficar caçando problemas e tumultuando o clube? Ao palmeirense é que não é.

E se não fugi da faculdade no terceiro semestre, é muito claro que quem se interessa por notícias de determinado clube é o seu torcedor, oras.

E na imprensa esportiva poucos perceberam o quanto é necessário conhecer o seu receptor, conhecer o seu público alvo. Eis aí a sacada que a mídia palestrina percebeu de maneira espontânea e natural: ela faz sucesso porque utiliza a linguagem do torcedor, porque trata dos assuntos que o torcedor quer saber. Isso é óbvio.

A própria coluna que vocês lêem nesse exato momento é fruto de uma interação em fórum de discussões aqui no PTD. Não que a coluna seja um sucesso, mas os e-mails que recebemos e os comentários que são postados mostram que o leitor lê o que quer ler, e quando não encontra o esperado, cobra, seja nos comentários, por email, ou em posts no fórum. E cobram mesmo. É só repararem nos comentários, em breve aparece alguém pedindo pra falar mais de assunto x ou y. E isso é bom, diria sensacional.

Não é receita de sucesso, não é arrogância, não sou detentor de fórmula mágica. Mas é gostoso para quem escreve ter um norte definido por quem lê. É comunicação eficiente independentemente de números de acessos.

Não quero e não tenho o menor desejo de que o Palmeiras não seja coberto pelos grandes veículos de comunicação. O Palmeiras tem sim que estar lá. Só que sendo fruto de análise correta, com os repórteres informando ao torcedor aquilo que ele quer e o que precisa saber. Não o salário do técnico, nem de ‘disse-me-disse’ plantado entre comissão técnica e médica.

Capítulo II – Sobre audiência e retorno

Falei acima sobre o quanto é gostoso saber qual a percepção do leitor sobre o que escrevo. Mas atenção: isso só vale para a mídia palestrina. Aqui no PTD ninguém recebe para escrever, é um prazer, um sofrimento, um parto, uma diversão, uma tristeza, uma alegria, muitas vezes tudo isso junto, mas não é rentável. Não entra grana no bolso. Todos que fazem isso aqui fazem por gostar do que fazem. Às vezes meio estressado como eu estive em outras vezes, mas ainda assim gostando, e muito, do que faço.

Na grande mídia não funciona assim. A publicidade é regida por métricas numéricas. Há poucas agências e empresas de comunicação que usam audiência qualitativa. É tudo quantitativo. Então, pouco adianta você entrar no blog de um cidadão que você, torcedor, não gosta e descer a lenha nele. É capaz até de deixar rolar o comentário sem te censurar, porque o que vale pro anunciante é quantos entraram na página e não se o internauta gostou ou não do conteúdo.

Claro que hoje há uma nova tendência, grandes empresas procuram sentir o que o consumidor quer e evitam atrelar suas marcas a produtos midiáticos de baixa qualidade. Mas ainda é uma tendência, não uma realidade consolidada.

Portanto, usem a razão e não a emoção. Dêem retorno a quem valoriza o seu retorno. A quem não está nem aí para o que o torcedor pensa, ofereçam o esquecimento. É no bolso que o mundo corporativo sente. E veículos de comunicação são empresas, só para lembrar.

No fim, quem trabalhar certo, de maneira correta, receberá o bônus. Do contrário, bom proveito do ônus. É capitalismo puro e simples. É a melhor maneira de se exigir respeito.

Capítulo III – Entre o respeito e o medo

Devemos e temos até obrigação de exigir respeito à Sociedade Esportiva Palmeiras. Não só ao Palmeiras, mas ao futebol e ao esporte como um todo.

Mas não podemos partir nunca para a violência. A violência é a atitude  que mais nos prejudicará: dará farto material para repercussão, matérias, editoriais, reportagens – e consequentemente retorno em mídia, ‘ibope’ e dinheiro aos veículos. E acabará com toda legitimidade e razão de qualquer queixa, passada, presente ou futura sobre o tratamento ao Palmeiras.

É preciso provar que o torcedor palmeirense é o que fala: diferenciado, crítico, apaixonado e inteligente. Quebrar a cara de qualquer um por aí é tudo, menos inteligente.

Jamais faça isso. Desconte a ira no grito de gol, no canto na torcida, no sadio e já institucionalizado coro de ofensas a juízes e adversários, mas jamais parta para a agressão. Isso não faz parte do futebol e quem pregar que faz parte está fazendo apologia a algo deplorável. A violência a gente só sabe como começa, mas não sabe como termina. E não só à imprensa. A violência é algo que quando inserido no meio, atinge a todos, inclusive a quem agride.

Claro que quem deveria pensar nisso em primeiríssimo lugar eram os jornalistas esportivos. Foram eles que se formaram em comunicação, logo eles tem que saber que tal mensagem enviada por eles, pode causar determinada reação no seu receptor. Isso é o básico. Não adianta repórter reclamar da violência depois de mexer com um barril de pólvora que é o futebol. Ele tem que pensar antes e fazer da ponderação sua ferramenta de trabalho por dois motivos: pelo bem da profissão e também da sua integridade física. A não ser que seja um louco suicida que queira correr riscos completamente evitáveis.

Enfim, seja esperto torcedor. Lembre-se que o mundo é capitalista e a maior arma que você possui é a audiência. É ela que atinge o bolso, e é através dela que conseguiremos que boa parte da imprensa esportiva respeite o Palmeiras.

Por Álvaro Costa
alvaro.costa@palmeirastododia.com  

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