Primeira sessão: Reféns do Centenário? (14/02/2014)
 
“Não seremos reféns do Centenário” afirmou o presidente Paulo Nobre. Não é difícil de entender o que ele quis dizer e o próprio se fez explicar por palavras e ações: não fará loucuras, e não fez; não comprometerá o caixa, e não comprometeu [?]; não arriscará os anos vindouros devido a este ano importante, e não arriscou. Uma certa lógica se destaca e mesmo os mais passionais e mais sedentos por títulos conseguem entender (ainda que não concordem!) a atitude do presidente. Mas a postura de um psicólogo frente aquele que se encontra em seu divã deve sempre ser de estranhamento; deve analisar para além das lógicas cotidianas, encontrar o não-dito, interpretar aquilo que se apodera sorrateiramente sobre nós, mesmo quando nos julgamos senhores absolutos de nossas falas e atos.

Primeira questão que aparece aqui: o que é se tornar refém? Para responder, façamos uma (breve) associação livre: imaginemos um carcereiro refém de prisioneiros em uma rebelião. O que se mostra ai? Ser refém é estar em uma relação de extremo poder, gerada por um contexto e uma história, na qual um está submetido ao outro a tal ponto que pode levar ao limite entre a vida e a morte. Agora, somos levados a outras questões: como alguém pode se tornar refém de algo abstrato, imaterial, como o Centenário? Como este ano ganha poder sobre nós, quase que colocando uma faca em nosso pescoço? Eis algo digno de analise...

De fato, não apenas aquilo que possui alguma materialidade exerce poder sobre nós. Cotidianamente, estamos submetidos a diversos microfatores que nem se quer temos consciência. “Prisões” do passado e ansiedade para com o futuro podem fazer do presente um “refém”, perdendo a fluidez necessária e, ainda que não fisicamente, se sentindo entre a vida e a morte, incapaz de ser aquilo que pode ser (vide: crises de pânico, ataques de ansiedade, depressão e por ai afora). E isso, a seu modo, acontece em campo, nas arquibancadas, na diretoria, no Palmeiras em seu Centenário. Analisemos brevemente um por um.

Em campo, jogadores podem se tornar reféns e isso se mostra em diversas situações que já conhecemos: as pernas pesadas dos jogadores no final da campanha do rebaixamento de 2012; a ansiedade de times inexperientes em jogos decisivos; um passe errado de dois metros; artilheiros vivendo longas secas de gol. Mas o que os faz reféns a ponto de não jogarem o futebol que já jogaram em outros momentos? Uma situação marcante pode nos ajudar a entender: o gol sofrido por Bruno nas oitavas da libertadores. Ele errou um movimento simples, que pratica todo dia. Por que? Por que lhe sobrevém a sombra dos grandes goleiros do passado? Ansiedade de fazer logo a defesa e repor a bola? Excesso de confiança? Com certeza, algo lhe prendia e não pode fazer o seu melhor. Errou. E não só por alguma deficiência técnica, mas porque estava preso e ansioso em campo (assim como Gilson Kleina na beira do gramado).

A torcida do Palmeiras, nos últimos anos, acaba por se tornar refém de seus próprios traumas, fantasmas, medos e fantasias. Tendo enfrentado tantas dificuldades e frustrações no passado recente, quem não os teria? E ainda assim, em meio as paixões verdes, não há a esperança de um ano melhor? É como um casal que briga, reata, promete que daqui para frente será diferente e, depois, repete os mesmos erros. Chega uma hora que a relação fica insuportável, gerando os mais diversos sentimentos: revolta, raiva, tristeza. Um passe errado em campo e já sofremos em dobro! Eu disse casal? Não, casais eventualmente terminam e partem para outra, a torcida, não. Retomaremos este assunto em outra sessão.

Agora, diretoria. Vimos diretorias inertes, com preocupações outras que não o bem estar do clube, se perdendo em “duvidosas transações” e buracos que “cavaram com os próprios pés”. O problema não é somente a falta de planejamento, como se costuma retumbar pelo jornalismo esportivo. Antes, para a saúde de um clube como o Palmeiras (e qualquer instituição, seja a empresa que trabalhamos, a faculdade que estudamos, a família que convivemos) é necessário uma estrutura. Mas não confundam com a infraestrutura física de um clube (CTs com equipamentos e etc.). Falo de uma estrutura de poder saudável que consiga dar voz, espaço, possibilidades aos seus integrantes, respeitando suas diferentes potencialidades de modo que somadas beneficiem a instituição. Sem isso, o poder se perde entre “todos” e “ninguém”, tornando-nos facilmente reféns de sabotagens e outras coisas mais.

Entre todos estes analisados, o Palmeiras. Passado vitorioso, presente complexo e futuro com muitas questões: será que não seremos reféns do Centenário? Somente poderemos saber no desenrolar do ano, analisando como jogadores, torcida e diretoria reagirão. Hoje, invicto... quer dizer alguma coisa? Domingo que vem, Corinthians... assunto para a próxima sessão

Teremos aqui sessões mensais (em caso de crise, sessões extras podem acontecer) para analisar não apenas o desempenho futebolístico, mas a postura, o comportamento, os medos, vícios e virtudes que se colocam em campo e fora dele. Tentarei mostrar que futebol não se joga somente com os pés, mas, principalmente, com a cabeça.

Até a próxima sessão.

R. Fonseca

Palmeirense e Psicólogo. Aproxima suas paixões nesta coluna a fim de entreter e esclarecer (ou não) questões do cotidiano do Palmeiras através de uma análise “psicológica”, colocando o clube no “divã”.

Contato: reffonseca@yahoo.com.br
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